A greve dos
caminhoneiros, que interditou milhares de trechos de rodovias em todo o país ao
longo de dez dias, é a maior mobilização mundial já feita pelo WhatsApp, dizem
Yasodara Córdova, pesquisadora da Escola de Governo de Harvard, nos Estados
Unidos, que estuda como os governos lidam com a Internet, e Fabrício
Benevenuto, professor de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), pioneiro na pesquisa de conteúdos compartilhados em grupos de
WhatsApp. "A mobilização ocorre por motivos sociais. As redes dão uma
vazão a esses sentimentos", diz Yasodara.
"Na
quarta-feira antes da greve, o (preço do) diesel aumentou. Desci para Santos
para levar carga. Quando voltei, o diesel já tinha aumentado. Na sexta,
aumentou de novo. A galera se comunicou no WhatsApp e falou: não está dando
mais", lembra o caminhoneiro Moisés de Oliveira, que ficou parado na
Rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, onde ajudou a organizar um grupo de
grevistas, sempre com o celular à mão.
A essência do
trabalho do caminhoneiro é circular. Isso facilitou que as mensagens se
espalhassem rapidamente por diferentes pontos do Brasil. "A gente viaja o
Brasil inteiro e vai conhecendo outros caminhoneiros. Quando chega no posto
para dormir, a gente conversa, troca o (número de) WhatsApp. Aí, quando chegou
a greve, já havia vários grupos montados e a gente distribuiu a
informação", diz Oliveira, de 40 anos, 22 anos deles passados atrás do
volante do caminhão.
"O Whatsapp
facilitou demais a nossa comunicação. Antes, a gente era desconhecido (um do
outro). Agora, o pessoal faz um vídeo e, em dois minutos, já espalhou pelo
Brasil", completa. "A gente não é envolvido com partido político
nenhum. Mas a gente tem a nossa logística".
Na última quinta-feira,
apesar de já não haver mais pontos de interdição nas estradas, segundo a
Polícia Rodoviária Federal, os apelos pela continuidade da greve não haviam
parado de circular pelo WhatsApp. Eram desde pedidos para caminhoneiros irem
até Brasília, para que ficassem parados em casa, até convocações de protestos
nas cidades.
Conversas fechadas, criptografadas, sem rastro e em pirâmide.
A comunicação por
WhatsApp tem características diferentes das feitas por Twitter e Facebook. Os
dois últimos "são como uma via pública, uma praça, onde você abre uma banquinha
e as pessoas podem te ver e interagir com você. Já o grupo de WhatsApp é como a
sala de jantar da sua casa, não entra todo mundo", exemplifica a
pesquisadora brasileira Yasodara Córdova.
Na prática,
enquanto postagens públicas no Twitter ou Facebook podem ser vistas por
qualquer um e chegar de uma vez só a milhares de usuários, as mensagens de
WhatsApp atingem apenas um indivíduo ou os participantes do grupo, limitados a
um número máximo de 256 pessoas. Dali, podem ser levadas para outras pessoas ou
outros grupos, em uma distribuição em pirâmide.
Além disso, todo
diálogo é criptografado - é como se a sala de jantar estivesse bem trancada e
só pudesse entrar quem fosse convidado ou tivesse a chave.
Isso faz com que a
conversa fique fechada - para acessá-la, só infiltrado. "A comunicação no
Whatsapp acontece de maneira mais velada, mais escondida. São grupos
relativamente pequenos. E não há registro público, um rastro, porque há essa
encriptação", diz Benevenuto.
Além disso, a
comunicação é mais difusa. A conversa vai se propagando pelos celulares, sem
registro de quem foi a fonte original da informação - seja mensagem em texto,
imagem, áudio ou vídeo. Assim, fica mais difícil identificar quem são as vozes
mais difundidas e que estão se transformando em lideranças.
Essas
características fazem com que a mobilização pelo WhatsApp represente um novo
desafio para governos, acostumados a negociar com lideranças de organizações
definidas, com logotipo e CNPJ.
"O sindicato é
um modelo que está em declínio no mundo todo. Não só em termos de
representatividade, mas também em metodologia. No caso da greve dos
caminhoneiros, há um pioneirismo da organização do trabalho baseado na
internet. É uma espécie de sindicato digital. É possível que no futuro a gente
tenha novas formas de mobilização da força de trabalho como essa", fala
Yasodara.
Governo foi driblado pela organização dos caminhoneiros
No quarto dia de
greve, uma quinta-feira, o governo do presidente
Michel Temer fechou um acordo com parte dos representantes de associações e
sindicatos de caminhoneiros, se comprometendo a baixar o preço
do combustível em 10% por 30 dias. Com isso, anunciou que a greve iria ter uma
trégua. Naquele momento, os postos já começavam a ficar sem combustível.
Mas os
caminhoneiros organizados pelo WhatsApp não concordaram com a negociação. No
aplicativo, seguiram-se mensagens de repúdio às lideranças que negociaram com o
governo Temer, além de aúdios e vídeos notificando sobre pontos de paralização
que se mantinham ativos. Nada de acordo, a greve continuava.
"Se não
tivesse o WhatsApp, eu creio que o governo já tinha enganado a gente há dias. O
governo ia na televisão dizer que a greve acabou. Até um caminhoneiro conseguir
se comunicar com outro, já tinha tudo mundo ido embora, tinha acabado a greve.
Agora, a gente assistiu a nota do presidente e já passou informação para os
grupos de WhatsApp: não acabou não", explica o caminhoneiro Moisés
Oliveira.
São Paulo usou o WhatsApp nas negociações
No Estado de São
Paulo, foi traçada uma estratégia diferente para negociar com os grevistas. O
presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, Marcos da
Costa, irmão de um caminhoneiro hoje afastado da profissão, resolveu entrar nas
negociações.
"Não era um
movimento institucionalizado, respondendo a sindicatos e associações. Eram
caminhoneiros que se esgotaram com o aumento do preço dos combustíveis e
começaram a parar (de rodar). A comunicação deles por WhatsApp permitiu que se
formasse uma onda muito rápida no Brasil inteiro", diz Costa.
Depois da
negociação fracassada do governo federal na quinta-feira, Costa pediu que
colegas advogados do setor de transportes procurassem identificar quem eram as
lideranças dos caminhoneiros parados em São Paulo. Em seguida, no sábado de
manhã, mais de 10 delas se reuniram na sede da OAB.
"No começo da
reunião, os caminhoneiros pediram para tirar foto e fazer vídeo para
compartilhar nos grupos de WhatsApp. Isso viralizou. E serviu para que a gente
pudesse ter segurança da capacidade de mobilização daquelas pessoas", fala
o presidente da OAB.
Em seguida, foi
montado um novo grupo de WhatsApp entre esses caminhoneiros e a OAB. "Esse
grupo serviu de preparação das pautas de negociação. Ele canalizava as demandas
dos caminhoneiros, porque cada pessoa dessas tinha interlocução com outros
grupos de WhatsApp. Era uma rede gigantesca", fala Costa. "Eu não
tenho dúvida de que isso fez a diferença. Foi fundamental para abrir a
possibilidade de diálogo com aqueles que estavam realmente à frente do
movimento".
No sábado à tarde,
o grupo de WhatsApp criado pela OAB se reuniu com o governo de São Paulo para
negociar a desobstrução das estradas do Estado.
"Ainda durante
a reunião, eles (os representantes dos caminhoneiros) mandaram mensagens de
WhatsApp para a base pedindo para liberar (as estradas). Cerca de uma hora
depois, vimos pela cobertura da mídia que a liberação estava começando. Foi o
diálogo por WhatsApp que permitiu a primeira liberação de rodovia",
comenta o advogado. O movimento dos caminhoneiros em São Paulo não acabou ali,
mas de fato começou a diminuir.
Ainda no sábado, o
ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, esteve em São Paulo para
participar das conversas com o grupo paulista, tomar conhecimento das pautas e
tentar tirar as negociações de Brasília do limbo.
"A greve
mostrou que vamos ter que criar mecanismos para dar conta de demandas
apresentadas de forma completamente diferentes. Tradicionalmente, eram
instituições que iam ao governo apresentar suas pautas. Hoje, vemos movimentos
líquidos, absolutamente horizontalizados. A partir de agora, os governos vão
ter que aprender a lidar com essa nova realidade e aprender a identificar
canais que possam servir para diálogo", conclui Costa.
WhatsApp foi a principal forma de contato com a mobilização
A primeira medição
da importância do WhatsApp na greve dos caminhoneiros foi feita pelo Ipsos. Na
última terça-feira, o instituto de pesquisa entrevistou cerca de 1,2 mil
caminhoneiros que usam um aplicativo de cargas. Dentre os entrevistados, quase
metade (46%) soube da paralisação via WhatsApp.
É mais que o dobro
de importância da própria estrada - 18% souberam do movimento sendo parados por
colegas enquanto rodavam com o caminhão. O Facebook veio em seguida, informando
8,5% dos entrevistados. Um número ínfimo de 1% foi convocado por sindicato ou
associação. Entre os entrevistados, estão tanto caminhoneiros que estavam
protestando, como quem ficou em casa ou estava rodando normalmente.
Por outro lado, nem
tudo é digital. Entre o grupo mais ativo de caminhoneiros, que continuava
parado nas estradas na última terça-feira, o corpo a corpo foi tão importante
quanto a mobilização nas redes - 39% tomaram conhecimento da greve na estrada,
enquanto outros 39% souberam por WhatsApp e Facebook.
A importância do
WhatsApp na greve também fica evidente em um boato que circulou no próprio app,
alertando usuários para não atualizarem o aplicativo. Segundo a mensagem, a atualização
do WhatsApp teria sido determinada pelo governo federal para inviabilizar a
comunicação de participantes da greve. O WhatsApp informou que essa informação
não procede.
O dia a dia dos grupos de WhatsApp
Uma vez que a
mobilização tinha começado, o WhatsApp foi fundamental para propagar
informações, passar mensagens de motivação, angariar apoio e bater de frente
com o governo do presidente Michel Temer.
É possível ter um
retrato de como isso aconteceu pelo monitor do WhatsApp desenvolvido pelo projeto
"Eleições Sem Fake", coordenado por Benevenuto, da UFMG. O sistema
acompanha 182 grupos públicos com temática política e seleciona quais são as
imagens mais compartilhadas diariamente. É a única ferramenta brasileira que
acompanha o que ocorre dentro do WhatsApp - seu uso é restrito a pesquisadores.
Segundo o monitor,
um dia antes da greve começar, uma imagem de caminhões parados em uma estrada
já estava entre as dez mais compartilhadas do dia: "greve geral pela baixa
dos combustíveis, você apoia?". Era o movimento se organizando.
Já na
segunda-feira, quando os caminhoneiros começaram a parar as rodovias, a greve
foi a temática das cinco imagens mais compartilhadas do dia. Na terça-feira,
idem - sendo que uma das imagens fazia um chamado: "caminhoneiros convocam
população, sozinho (sic) não conseguiremos".
Na quinta-feira,
quando o governo de Michel Temer buscou negociar com lideranças de organizações
de caminhoneiros, o topo de compartilhamentos foi uma imagem com a hashtag
"SomosTodosCaminhoneiros" e outra com a frase "A greve
continua". Também circularam memes culpando o PT pela crise e, no sentido
oposto, dizendo que a crise começou porque o PT saiu do governo.
Em seguida, pedidos de intervenção
militar passaram a despontar. Já na última terça-feira, quando o
protesto dos caminhoneiros já estava perdendo força, os grupos de WhatsApp
foram tomados por críticas à baixa adesão da população ao protesto: "Povo
tem o governo que merece: reclama ficar 3h na fila do hospital, mas fica 8h na
fila do posto de combustível"
Informações reais duelam com fake news
Nesse meio tempo,
foram surgindo grupos de WhastsApp de apoiadores dos caminhoneiros, para troca
de informações sobre a greve. A BBC Brasil acompanhou seis deles. Em meio a
mensagens verdadeiras, circulavam muitas notícias falsas e desatualizadas.
Entre elas, vídeos dizendo que manifestantes tinham ocupado Brasília e imagens
informando que militares estariam prestes a tomar o poder.
No começo desta
semana, foi feito um apelo nos grupos: que os caminhoneiros passassem a
informar data, hora e local da mensagem de áudio ou vídeo, já que tudo estava
mudando muito rapidamente e era preciso identificar se se tratava de algo novo
ou não. Em um dos grupos, criado no dia seguinte à greve, o administrador
deletou mais de 200 participantes acusados de promover "fake news".
"A ideia do
WhatsApp é a comunicação ponta a ponta. Não tem impulsionamento de mensagens,
como no Facebook. Então, a empresa não tem influência no diálogo. São grupos se
auto-organizando e repassando essas mensagens", afirma Benevenuto.
É uma via aberta,
por onde trafegam os diferentes ideiais de uma sociedade. "Eu me lembro de
ver a primavera árabe, em 2011, e pensar: 'as redes sociais vão virar movimento
político, vão alavancar a democracia, vão abrir a cabeça das pessoas, não tem
como governos autoritários controlarem uma coisa dessas'. E hoje vemos que pode
ser usada para qualquer dos lados. Tem pedido de intervenção militar, notícia
falsa...", completa o pesquisador da UFMG.
WhatsApp vai ser importante nas eleições de 2018
O WhatsApp, usado
por 60% da população do Brasil, já é uma das principais fontes de informação no
país. Segundo o Digital News Report de 2017, um estudo sobre o consumo de
notícias produzido em conjunto pela Reuters Institute e pela Universidade de
Oxford em 36 países, 46% dos brasileiros usam WhatsApp para encontrar notícias.
O número é muito
maior do que a média mundial, de 15%, e chamou a atenção dos pesquisadores. No
estudo, eles destacaram que o WhatsApp cresceu tanto no Brasil que já está
rivalizando com o Facebook - usado por 57% dos brasileiros para encontrar
notícias.
"A greve de
caminhoneiros aponta totalmente como pode ser o uso do WhatsApp nas eleições de
2018", diz Maurício Moura, pesquisador da George Washington University,
nos Estados Unidos, que analisou o uso do aplicativo nas eleições de 2014.
Segundo o pesquisador, a tendência é que o debate eleitoral deste ano ocorra
muito dentro do app de conversas.
"A rede social
das eleições de 2018 vai ser o WhatsApp. Hoje, muito mais pessoas têm
smarthphones no Brasil do que em 2014", avalia Moura, que também já
trabalhou com campanhas políticas e é fundador da Ideia Big Data, que realiza
pesquisas de opinião. "Agora, não tem como fazer campanha no WhatsApp sem
números de telefone. Por isso, a primeira estratégia dos candidatos e partidos
é coletar números de celular, em eventos, fan pages...".
Mesmo antes da
campanha, já há diversos grupos de apoiadores de candidatos, como Jair
Bolsonaro. "A tendência é as pessoas se organizarem nos grupos de WhatsApp
em torno de candidatos e pautas. Por outro lado, pessoas que querem
desestabilizar as campanhas umas das outras também estarão operando nos grupos
de WhatsApp com bastante intensidade", acrescenta Yasodara.
O combate às
notícias falsas, que se tornou uma grande preocupação desde a eleição de Donald
Trump, em 2016, promete ser muito mais difícil no WhatsApp. O Facebook, por
exemplo, se comprometeu a não impulsionar páginas que promovam notícias falsas.
A rede social pode fazer isso porque funciona como uma mediadora das publicações.
Já no WhatsApp, onde não há nenhuma forma de controle externo, isso é
impossível.
"Enquanto
Facebook e Twitter estiveram sob forte escrutínio nos últimos tempos, o
WhatsApp passou um pouco batido. Porém, o app é extremamente utilizado dentro
do Brasil. Com toda essa atenção que se deu às outras redes, muito do esforço
de campanha política migra para o WhatsApp, onde não há quase nenhum
monitoramento", diz Benevenuto, da UFMG.
No WhatsApp,
combater notícias falsas e discursos de ódio "é um desafio tão complexo
quanto regular o discurso dentro das casas das pessoas", compara Yasodara.
"Como a sociedade faz para que os pais não ensinem aos filhos que o
nazismo é uma coisa legal? Primeiro, criminaliza o que é ilegal. Segundo, traz
cada vez mais informações verdadeiras para o debate público ", opina a
pesquisadora de Harvard. Reproduzido na integra do portal do R7.COM
*
Colaboraram Juliana Gragnani, André Shalders e Felipe Souza

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