quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Superação e coragem: Pistorius quebra barreiras e vira referência

Vencedor do Laureus 2012, sul-africano acredita que sua luta pela igualdade tornou o paradesporto mais respeitado e profissional, e sonha com vaga na Olimpíada.
Se Djokovic e o Barcelona foram premiados pela temporada quase perfeita em 2011, Kelly Slater pela longevidade e competitividade mesmo quase com 40 anos, e Raí por suas ações sociais, a edição de 2012 do Laureus ficou marcada também pela consagração de um atleta que tem na coragem sua maior virtude: Oscar Pistorius. Mais do que os resultados na pista, onde é recordista mundial nos 100m, 200m e 400m rasos para amputados na classe T 44, o sul-africano foi responsável, no ano passado, pela transformação na forma como os atletas com deficiência são vistos no mundo.
Aos 26 anos e sem adversários em sua categoria, Pistorius conseguiu em 2011, enfim, sua maior vitória, e em uma batalha que se arrastava há mais de quatro anos: participar de grandes competições de atletismo convencionais. Mais difícil do que o índice para as disputas foi conseguir da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) a permissão para dividir a pista com não paraolímpicos. Feito isso, o velocista foi longe e chamou a atenção do mundo ao ser medalhista de prata no Mundial de Daegu, na Coreia do Sul, com no revezamento 4 x 400m, além de ser semifinalista nos 400m rasos.
Oscar Pistorius recebe o prêmio no Laureus 2012 (Foto: Reuters)
- Você não é desabilitado pelas deficiências que você tem. Você é capaz de fazer o que suas habilidades permitem. Cresci pensando que podia, sim, fazer o que as outras crianças faziam – disse Pistorius, que se acostumou a ignorar a palavra limitação de seu dicionário.
Superatleta desde a infância
Com as duas pernas amputadas ainda com 11 meses, o sul-africano já tinha deixado claro, bem distante da Coreia do Sul, que a deficiência física não o impediria de buscar seus objetivos. Ainda criança, em Joanesburgo, Pistorius demonstrava seu desejo de igualdade e fazia do esporte um caminho para que fosse aceito sem restrições pela sociedade. Já com a ajuda de próteses, aos 13 anos era quase um superatleta, praticando rúgbi, pólo aquático, tênis, vela, futebol e críquete. Esportes que serviram como ponte para o atletismo.
Em 2003, aos 17 anos, Oscar Pistorius sofreu uma lesão no joelho disputando uma partida de rúgbi. No processo de recuperação, foi apresentado ao atletismo e “nunca mais olhou para trás”, como costuma falar. Foi o pontapé inicial de uma carreira meteórica: nove meses depois, ele já estava em Atenas, para a disputa dos Jogos Paralímpicos, onde conquistou o bronze nos 100m rasos e uma incrível medalha de ouro com direito a recorde mundial nos 200m. Surpresa para o mundo, não para ele, que revelou um lema que norteia sua carreira:
- Quando eu cresci, meus pais me disseram duas coisas: não comece o que você não pode terminar e não faça nada que você não possa se doar 100%. Sou perfeccionista.
Oscar Pistorius em Bruxelas (Foto: Reuters)
A primeira aparição em competições convencionais aconteceu já em 2005, quando foi sexto colocado nos 400m no Campeonato Sul-Africano. A partir daí, convites começaram a surgir para participação em Grandes Prêmios, inclusive da IAAF, para etapa de Helsinque, no mesmo ano. O sucesso, porém, levantou suspeitas da própria IAAF que, dois anos depois, iniciou estudos para saber se as próteses dariam vantagens a Pistorius na disputa com outros concorrentes.
Polêmicas e adiamento do sonho olímpico
Em janeiro de 2008, a polêmica: o sul-africano foi proibido de disputar competições da associação por, supostamente, ter benefícios em relação a quem compete com tornozelos naturais. Foi quando o velocista começou a correr contra o tempo também fora das pistas, disposto a reverter a punição a tempo de buscar uma vaga na Olimpíada Pequim.
- Essa é uma decisão prematura e muito subjetiva – declarou na época.
E novos estudos provaram que Pistorius estava certo. Após recorrer na Corte Arbitral do Esportes (CAS), ele mostrou que os estudos não levavam em conta as condições apresentadas em uma prova de verdade, como inclinação do corpo, e teve a punição revista. As polêmicas judiciais, no entanto, atrapalharam os planos do atleta, que não conseguiu índice para compor a equipe sul-africana dos 4 x 400m por 0,70 segundos. Ele, por outro lado, foi à China para os Jogos Paralímpicos e levou o ouro nos 100m, 200m e 400m. Dever cumprido e meta traçada: Londres 2012.
Passados três anos do ciclo olímpico, Pistorius voltou ao noticiário em 2011, e dando mostras de que o sonho de disputar uma Olimpíada segue firme. Com 45,07 segundos nos 400m rasos, alcançou o índice para disputar o Mundial de Daegu tanto na prova quanto no revezamento 4 x 400m. Individualmente, ele avançou às semifinais, enquanto foi medalhista de prata com sua equipe, mesmo tendo ficado fora da final, uma vez que participou das eliminatórias.
'Hoje, o movimento paralímpico é mais sólido. Somos mais profissionais'
Oscar Pistorius

O feito foi responsável pela consagração de Pistorius como melhor atleta paralímpico de 2011, superando, inclusive, os brasileiros Daniel Dias e Terezinha Guilhermina. O sul-africano, porém, sabe que sua atitude representa muito mais do que conquistas individuais. Conforme disse ao GLOBOESPORTE.COM durante o evento em Londres, sua luta e ousadia têm sido importantes para que o movimento paralímpico em geral seja mais respeitado e profissional.
- Acho que o movimento paralímpico hoje é algo sólido, é maior do que já foi no passado. Acredito que a competição aqui em Londres será fenomenal, porque hoje somos mais internacionais. Nos últimos quatro anos, é evidente que passamos a ser mais profissionais. Ao contrário do passado, hoje temos o mesmo sentimento dos esportes de alto rendimento nas competições convencionais, nos esportes radicais. Tanto nas vitórias quanto nas frustrações. Tudo que se espera de atletas de primeiro nível. Fazer parte disso tudo me deixa muito orgulhoso, assim como estar pronto para todos os tipos de competições.
E quando fala “todos os tipos de competições”, a mente de Pistorius automaticamente passeia pelos Jogos Olímpicos. Grande favorito a três medalhas de ouro nas Paraolimpíadas, ele ainda busca índica na equipe convencional da África do Sul. Para isso, precisa correr os 400m abaixo de 45,25 segundos em competições oficiais até junho. Meta que os resultados de 2011 permitem o atleta sonhar alcançar (seu recorde pessoal é 45,07).
- Todos os dias eu busco melhorar. Sou realista e sei que hoje estou muito longe da possibilidade de disputar uma final individual. Fiquei como 21º do ranking no último ano e isso me mostra isso. Mas foi uma temporada que aproveitei bastante. Procuro refletir bastante e tirar lições todos os anos. Espero que 2012 seja um ano ainda melhor do que 2011, que já foi fenomenal. Estou mirando isso. Acredito muito no meu treinador, na equipe que tenho, em quem torce por mim, e acho que isso é, sim, possível.
Daniel Dias elogia, mas com ressalvas
róteses usadas por Pistorius: polêmica (Foto: AFP)
Ao mesmo tempo em que aumenta a visibilidade do esporte paralímpico no cenário esportivo mundial, a ousadia de Oscar Pistorius divide opiniões entre celebridades no segmento. A velocista brasileira Terezinha Guilherme, também recordista e campeã mundial nos 100m, 200m e 400m, mas para cegos, apoia o sul-africano e diz também ter o desejo de ultrapassar as barreiras do paradesporto.
- Eu acho fantástico o que ele fez. Se eu pudesse, também competiria entre atletas que não são paralímpicos. Já disputei algumas competições regionais, quando tive permissão.
Por outro lado, o nadador Daniel Dias demonstra uma mistura de admiração e reprovação. Ao mesmo tempo em que há a fascinação pela barreira superada, o brasileiro acredita que é importante que cada um respeite seu próprio espaço para que o mesmo seja respeitado.
- É meio complicado. Buscamos o nosso espaço, não igualdade. São visões diferentes. Creio que ele fez algo incrível, de realmente mostrar para as pessoas que o limite somos nós que colocamos. Agora, eu acho que cada um tem o seu lugar. Essa é minha opinião. Temos o nosso lugar e queremos apenas o nosso espaço.
Polêmicas à parte, Pistorius seguirá sendo a atração paralímpica até os Jogos de Londres, conseguindo ou não a vaga na Olimpíada.

Por Cahê Mota.Londres, Inglaterra 
 http://globoesporte.globo.com

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