quarta-feira, 24 de junho de 2015

A história da poeta indígena Márcia Wayna Kambeba

Com certeza você já ouviu falar de Márcia Wayna Kambeba do povo omágua/kambeba, mestra em geografia, escreve poemas, canta, recita e sempre conta para as pessoas a história de seu povo, aqui vamos falar um pouco sobre sua vida, sua trajetória, e sua luta junto aos povos indígenas.
Foto: Márcia Kambeba
     Márcia vieira da silva artisticamente conhecida por Márcia Wayna Kambeba, nascida em 1979 no alto Solimões (Amazonas), em uma aldeia chamada Belém do Solimões pertencente ao povo ticuna, convivendo com o povo ticuna até aos 8 anos de idade ela e sua família deixaram a aldeia por motivos de saúde e foram em busca de melhorias. Márcia conta que na época as casas eram feitas de palha e as ruas não eram asfaltadas, ela guarda na lembrança as histórias contadas pelos mais velhos, os contos e as danças.
  Saindo de Belém do Solimões, Márcia foi morar em são Paulo de Olivença que antes foi a maior aldeia do seu povo de origem os kambeba, sua avó era poeta, dentro da possibilidade dela produzia versos e Márcia com 8 anos de idade cantava, fazia discursos quando apareciam autoridades em sua cidade, nascia ai a paixão pela poesia e também pela música.
   “Como toda criança estudei o ensino fundamental e médio, com 12 anos de idade fiz minha primeira poesia também fiz composições, músicas para mim mesma nada ainda para o público, com 14 anos eu já comecei a trabalhar em rádio, como radialista fiz o programa chamado “18: horas, hora da prece”, pois sou católica e na época não existia rádio eu fazia com o módulo de bocas de ferro, depois chegou na minha cidade uma rádio,uma fm comunitária comecei a fazer programas de entrevistas com personalidades da cidade, políticos, vereadores e visitantes de fora, era um programa informativo onde também tocava músicas era chamado “entre amigos”, fiquei 10 anos na rádio foi o que me ajudou a educar a minha voz e poder usa-la dentro do que eu quero que hoje é trabalhar com poesia, na época eu cantava e fazia shows com amigos em barzinhos, aos 15 anos eu comecei a roteirizar e a fazer peças de teatro, pois na escola onde comecei a me alfabetizar trabalhava na gente a paixão pelo teatro, atualmente eu roteirizo peças de teatro e também trabalho atuando nas peças e também em filmes.” Conta Márcia 
   Saindo de São Paulo de Olivença, Márcia foi morar em tabatinga (Amazonas), onde iniciou sua faculdade estudou geografia e começou a lutar pela valorização da cultura indígena, desde dos 12 anos de idade ela já compreendia a importância de mostrar para o outro a real cara dos povos indígenas que não é mais de esta em aldeias e muito menos de falar errado.
   “Os povos indígenas são educados, se expressam bem, falam bem e se muitas vezes trocam uma palavra por outra não é porque são ignorantes ou desconhecedores dessa realidade, tem indígenas que já rodaram o mundo se hospedaram em hotéis de luxo mas continuam mantendo a simplicidade de ser quem são, sem perder a sua identidade mantendo sempre o pé no chão, eu ando em outros estados e tenho essa convicção que outros parentes (nós indígenas nos tratamos assim como parentes), então nós buscamos informação na escola do branco justamente pra isso, pra poder informar e fazer a pessoa conhecedora de que nós não somos esses desconhecedores de cultura, nós temos um saber que nem toda escola pode fornecer a todo mundo” Declarou Márcia.
    Em tabatinga terminou a sua graduação, as dificuldades enfrentadas ao longo da faculdade foram que na sua época não tinha cota, ela realizou a prova normalmente concorreu a nível de estado e foi a primeira aluna da UEA (Universidade do Estado do Amazonas). Ela lembra que não tomava café e muito menos almoçava, apenas jantava pois economizava o dinheiro para comprar apostilas obrigatórias para seu estudo, imediatamente Márcia teve a ideia de voltar com o seu trabalho em rádio e saiu oferecendo o seu trabalho nas emissoras, nas rádios da Colômbia, Peru e Brasil, pois ela estava em um município que faz fronteira com Peru e Colômbia chamado “tabatinga”, em pouco tempo Márcia foi aceita em uma rádio onde começou a trabalhar como radialista, sua paixão também é pela famosa rádio, só que atualmente como o seu trabalho exige que ela faça viagens, isso impedi que ela possa trabalhar fixamente em um só lugar com a profissão de radialista. Em Manaus a mesma foi em busca de seu mestrado, chegando lá fez especialização em Educação ambiental em uma faculdade particular, logo em seguida foi tentar o mestrado na UFAM (Universidade Federal do Amazonas), conquistou o segundo lugar, ganhou uma bolsa de estudo e essa bolsa foi o suficiente para ela desenvolver sua pesquisa com o seu povo os kambeba em uma aldeia localizada á 40 km distante de Manaus, o trabalho foi super gratificante onde rendeu uma pesquisa ótima e uma defesa excelente com o privilégio de ter ganhado 10 pontos de cada professor na banca de defesa, classificando assim a pesquisa não como um trabalho mas sim como um documento.
   “A importância da universidade na vida do indígena é essa no registro para com sua memória na contribuição que nós damos ao nosso povo em voltar ao nosso lugar de origem levando informações, conhecimento e contribuindo também para que esse povo continue caminhando lutando, fortalecendo a sua cultura dentro do que nós chamamos de conhecimento ancestral e cultura material e imaterial” disse Márcia.
    De Manaus Márcia veio morar em Belém do Pará onde casou e teve um livro escrito aqui em Belém o “AY KAKYRI TAMA”  esse livro tem o objetivo de informar como os povos indígenas vivem, como estão os povos indígenas hoje em dia, citando as suas aldeias se fazem uso das tecnologias, ressaltando a preocupação dos povos com a natureza  onde sempre cuidam para que o outro possa usufruir. Os povos indígenas não gostam de ser chamados de índios, pois eles dizem que essa palavra carrega negatividade e realmente como vemos hoje em dia a palavra “índio” gera um certo preconceito então fica a dica “cada povo tem seu nome”, essa palavra “índio”  não os pertencem chamamos de povo, povo como kambeba, ticuna e por ai vai.
Vejamos uma poesia de Márcia com relação a esse assunto: 
   “Não me chame de índio porque esse nome nunca me pertenceu, nem como apelido quero levar o erro que Cabral cometeu, por um erro de rota senhor Cabral em meu solo desembarcou e com desejo de nas índias chegar com o nome de índio me apelidou esse nome me traz muita dor uma bala em meu peito transpassou, meu grito na mata ecoou meu sangue a terra jorrou”.    
   A história de Márcia Wayna Kambeba é uma história de muita luta aqui contamos um pouco da vida dessa indígena que tanto batalhou e ainda batalha pelo seu povo, ganhou meu respeito e minha admiração, parabéns à todos os povos indígenas que lutam para conquistar cada vez mais seu espaço.
Confira agora uma mensagem deixada por Márcia:    
   “Quero agradecer todo o carinho que recebo em Belém do Pará onde fui muito bem recebida pelo mundo poético daqui, pelos artistas e parceiros Ivan Cardoso, Joelma Claudia, Aline Queiroz entre outros. Está em Belém é um prazer muito grande, meu trabalho expandiu alcançou novos horizontes se encontra até fora do Brasil graças a deus, e eu tenho prazer de ter dentro dos meus amigos compositores, parceiros de composição, Edu Toledo do Rio de Janeiro (pianista, compositor, ator), futuramente vou está lançando meu CD com a produção do Edu, Agradeço ao Robertinho silva (baterista), Laila Rosa na Bahia ( violinista compositora e cantora) entre outros. Hoje tenho uma alegria imensa do meu trabalho ter alcançado o mundo artístico dessa forma e está sendo muito bem aceito e onde eu vou eu levo o carinho desse povo paraense, digo que sou do Amazonas mas meu coração é Paraense levando o Pará no meu peito, procuro representar o Pará e o Amazonas fiz uma homenagem para Belém do Pará com um poema chamado “ Belém indígena, Belém cabocla” é uma forma de dizer obrigada Belém, obrigada Pará por esse carinho  e contribuição na arte que eu represento da cultura indígena, obrigada a todos os povos indígenas que compõem a região do Pará".
EM BREVE:
As músicas de Márcia e seu parceiro Edu Toledo estarão em um filme chamado “Os Breves” gravado em Breves e que fala do encontro do indígena com o branco em uma situação de dor e luta.  Texto: Liliane Marques.
Connect Pará

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